“Meu Deus do céu, paguei o meu Corcel!”

Por Luciene Garcia

Inhaim?
Parece que foi outro dia mesmo que eu falei: chega, ponto final, cansei de ir de patroa em patroa de tuc-tuc, de mototáxi com aquele capacete cheirando a Neutrox ou de busão com um engraçadinho encoxando. Queria um carro pra ficar bem na fita. E comprei um carango. O meu Corcel. Meu sonho sempre foi ter um Corcel. Eu me lembro que chamei a Lolosa e fomos do Estacionamento Lata Véia. Lembro até do nome do dono do estacionamento: Aristóbulo Câmbio Duro. O Aristóbulo usava gumex no cabelo, bigode de marichi, calça bege boca de sino, camisa de tergal, uma corrente de Nossa Senhora no peito cabeludo e óculos ray-ban de motorista da Cometa. E ele ainda mastigava um palito de dente no canto da boca.

Amei o Corcel amarelo, de banco marrom, câmbio com caranguejo. Paguei R$ 2.500,00, ano 75, pneus carecas. Perguntei pro infeliz: “é flex?”. E ele: “não, é a querosene”. Resolvi parcelar para caber no bolso. Foram 60 parcelas de R$ 54,54. Comprei quatro pneu meia sola na Borracharia Zé do Galo, pus quatro almofadas de onça no banco de trás e uma oncinha no painel que brilha os olhos toda vez que o Corcel breca. Franja no para-brisas, buzina de jegue e um adesivo: “presente de Deus”.

Me lembro que fui na Auto Escola Boa Batida pra tirar carta. Que diabo era aquilo: exame de vista, exame “psicográfico”, exame do livro, aulas com o homem que guia na rua. E custava (custa) uma nota preta. Resolvi fazer. Me deram um livro para estudar. Cheio de setinha com risquinho, pontinho, o diabo. Comecei a ler o negócio. Tinha seta pra cima, seta pra baixo, pare, proibido mudar de faixa da esquerda pra direita, um monte. Eu lembro que comecei a ficar com olheiras de tanto ler o livro. E nada. Pudera, não decoro nem “parabéns a você”.

Aí marcaram aula com o instrutor. Fui. O homem mandou eu sair devagarinho. Eu abri a porta e saí devagarinho, pé por pé. E o homem: “é pra sair com o carro”. Nasci burra. Ele me ensinou onde era o breque, o acelerador e a “embrenagem”. O carro uivava e não saia do lugar. E o instrutor: “debreia”. Que diacho é “debreia”? Cheguei a pensar em desistir, mas não, sou Lulu do Canavial, consegui sair com o carro. Pior é que confundo o que é esquerda com o que é de direita. Faço sempre ao contrário. E ele: “o que eu mandar a senhora fazer, a senhora faz ao contrário”. Deu certo. No sinaleiro, eu levei pau. Sou daltônica. É de família. Meu pai era daltônico, meu avô era daltônico e meu bisavô era biotônico (Fontoura), mesmo assim porque não tinha daltônico no tempo dele, só biotônico. Fui uma negação na baliza e derrubei todos os paus, mas dei uma grana pro moço e consegui a carta.

Paguei o Corcel dois anos, de faxina em faxina. Mas tenho uma máquina. A única coisa que me estristece é que quando eu comprei o carro, chamei o Ditão do Espeto para dar a primeira volta comigo e com a Lolosa. Estava me achando o máximo. Até que na hora que o Ditão parou num sinaleiro, um homem gritou: ”uuuuuuh, dedéu, carro de puta é Corcel…”
Minha alegria de pobre durou pouco…