Os desafios da imprensa em tempos de pandemia

Os desafios da imprensa em tempos de pandemia

O avanço da Covid-19 significa um teste para a imprensa. O impacto da doença é tamanho e a falta de informação do governo expõe a ferida. Tanto que foi preciso que os veículos de informação tiveram que criar um consórcio para se obter dados – o governo se embolou e dificultou o acesso às informações.
Segundo o professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação e do curso de Jornalismo na ECA/USP, Luciano Victor Barros Maluly, o problema está na proliferação dos “achismos”, que, junto `as fake News, fizeram um estrago entre os jornalistas, e, o que é pior, do leitor/ouvinte/internauta. Maluly diz, e eu concordo, que essa prática amadora já era uma realidade nas mídias sociais, mas agora foi institucionalizada pela grande mídia que estampa em suas manchetes, depoimentos confusos e, às vezes, descabidos de alguns formadores de opinião.
Desde o advento da internet, em que começaram a pulular sites, “jornaizinhos” pelo whatsApp, eu senti um cheiro de desgraça no ar. Nessa, quem se deu bem foi quem investiu nos checadores de informações. Aí o leitor/ouvinte/internauta passou a acreditar nesse ou naquele veículo depois de entender que ele (veículo de informação) trouxe a verdade. Quem teve olho clínico para contratar os checadores ou contratar agências encarregadas na checagem se deu bem. Os demais ficaram na poeira, a milhares de luzes.
A informação é muito preciosa para se deixar perder nessa Torre de Babel em que estão envolvidos donos que querem ter lucro, jornalistas que querem seu emprego a qualquer custo e estagiários explorados (com raríssimas exceções). Lembro-me bem quando o ex-ministro das Comunicações, o finado Sérgio Motta, braço direito de FHC, implementou a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e aprovou, em 1997, a Lei das Telecomunicações. O setor de telecomunicações passou a ser um dos mais atraentes e lucrativos para o setor privado. Começava um tempo novo para as comunicações no Brasil.
Depois veio o celular, importantíssimo nas comunicações, e com ele uma série de perigos para o jornalismo de fato, aquele que ouve as duas partes, partindo-se do pressuposto de que uma história tem dois lados. Começaram a surgir fofocas e essas fofocas começaram a fazer parte da rotina de qualquer um que tivesse o aparelho na mão. A imprensa séria sofreu na carne a invasão das fake News. Até a expressão é americanizada (brasileiro não teve criatividade para criar o seu próprio jargão). E durante anos a imprensa mergulhou em campos leves, com programas sensacionalistas, fofocas das vidas dos famosos, programas de auditório e uma infinidade de formatos que não caberia nesse espaço eu discorrer sobre todas. Blogs e sites e Tv’s locais começaram a surgir aos borbotões. Até que chegou a Covid-19. Foi o desmonte. Agora chegou a vez de saber quem pratica o jornalismo realmente, aquele do tempo que o repórter pegava o seu caderno e ia pra rua fazer uma reportagem de peso, ouvindo fontes, especialistas (se fosse o caso), o fotógrafo junto para colher as melhores imagens, numa sinergia com o repórter.
Um tempo em que a pesquisa era em arquivos dos jornais em papel. Para se fazer uma suíte de uma matéria era necessário pesquisa no acervo para achar a matéria que originou aquela informação. O furo jornalístico era um deleite para o repórter e o fotógrafo, sem querer esmagar uns aos outros. Hoje não se tem furos mais (os jornais impressos estão anêmicos) – apesar de a Piauí ter dado um mega furo recentemente.
A torcida é que professores (afastados de suas salas de aula por causa do distanciamento) e a família ensinem aos pequenos a distinguir a informação verdadeira da porcaria.
É, a gente era feliz e não sabia....
Luciene Garcia é jornalista, membro da Academia Francana de Letras e da Academia Cassiense de Letras. Escreve uma coluna social na Folha da Manhã e uma coluna de humor no site Folha de Franca.